Sociedade
Que seja um ano feliz
Que seja um ano feliz
Nestes tempos de propalada crise — há muito prevista e ignorada — já muitas vezes me deixei escorregar para considerações acerca do futuro da minha terra, e não só para este ano que agora começa, que se prevê terrível. Suponho não ser caso único, ainda mais nos dias que correm. Ouve-se muito dizer que a austera crise vai empobrecer o país; mas será que alguma vez, na sua história recente, Portugal foi um país rico, ou perto disso? É possível ser-se rico quando cada luxo de que usufruímos, enquanto país, corresponde ao aumento da dívida externa, que sabemos à partida não poder pagar? É verdadeiramente ser-se rico, ou confortavelmente remediado, quando aquilo de que usufruímos provém da produtividade alheia?
Estas são, entende-se, questões de pertinência económica, mas carregadas até o tutano de uma subjacente questão moral. O português habituou-se a que outros se preocupem por ele. Entrega decisões que dizem respeito à sua vida, e à persecução da sua felicidade, aos burocratas por ele eleitos, a quem depois aplica o epíteto de ladrões quando as suas acções não o beneficiam. No fundo, o português rejeita responsabilizar-se por si mesmo, mas exige de estranhos essa responsabilidade. Mas não é essa a razão deste meu exercício de retórica.
Comecei a escrever este texto em calções de banho, refrescado por vinte minutos de natação num mar calmo e de temperatura próxima da ambiente, a aquecer suavemente debaixo de um tímido mas eficaz sol de Dezembro. Estou na Madeira, e sem inveja nenhuma de quem tem bolsos mais fundos que o meu — e o meu é ralo. Tenho comida na mesa. Com um esforço aqui e ali, consigo satisfazer o meu vício por cinema. Se o mês se estica mais que a minha conta bancária, corto na preguiça e limito as minhas refeições, por mais pequenas que sejam, à minha cozinha — divirto-me a ver as pastelarias e e cafés deste país cheios de pessoas que se queixam da falta de dinheiro, enquanto tomam um pequeno-almoço de três a quatro euros, quando não é mais.
Estes momentos de praia em pleno Inverno, ninguém me paga. O vagar que consigo encaixar entre as horas mais apressadas do dia, ninguém me paga. Posso ter um bolso vazio mas não tenho qualquer sentimento de inveja em relação a quem aufere um ordenado médio das europas do norte. Sou mais rico. Tenho, neste preciso momento, melhor qualidade de vida.
Se avaliarmos a vida por outros padrões que não o meramente económico, talvez o ano de 2012 nos seja menos pesado. Talvez aprendamos a não exigir a vida ao estado. Talvez a tomemos nas nossas mãos.
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