Estórias
Aniversário
Aniversário
Vem aí um aniversário. O meu, claro. Também tenho direito a algum egocentrismo, por isso o aniversário sobre o qual escrevo é mesmo o meu. Já passei por alguns; já tive espinhas na ponta do nariz e ganhei barba pelo caminho. É o primeiro que celebro na ilha que me ouviu gritar pela primeira vez, e com a minha família mais próxima, nos últimos dezasseis anos. O mais próximo a que fui tendo direito durante esse período, foram as festas mais ou menos surpresa que a minha tia me ia fazendo, adoçadas pelos meus bolos e sobremesas favoritas, na minha segunda terra natal, Vila do Conde. Em três daqueles dezasseis anos, no entanto, o dia do carimbo oficial da passagem dos meus anos de vida foi contabilizado fora de Portugal, com temperaturas próximas do zero, amigos novinhos em folha e dentro de uma cultura diferente.
Desde que saí do Funchal, para perseguir a aventura do ensino superior, que aquela excitação (talvez infantil) de fazer anos não me atinge como atingia; talvez tenha sido o desenraízamento, talvez a chegada da vida adulta. A verdade é que, quando o rolo compressor dos meus trinta anos se aproximava, eu fui estudar para o País de Gales; mais longe ainda da vontade de celebrar. Nem disse nada aos meus novíssimos amigos, de várias nacionalidades, incluindo alguns portugueses — um deles madeirense. Não disse, até o dia estar quase acabado.
No dia a que me reporto recebi uma mensagem de telemóvel do madeirense supracitado para ir beber uma cerveja com ele ao seu apartamento da residência universitária pouco depois da oito horas (no Reino Unido é já depois da hora do jantar — duas horas depois). Era um convite habitual e eu fui, talvez até empurrado por um qualquer desejo subconsciente de celebrar. Não sei se foi da cerveja, se do tal desejo subconsciente, mas acabei por admitir a minha fresquíssima condição de trintão. Quase que se chateava comigo por não ter dito nada e começou, de imediato, a mandar mensagens para todos os estudantes portugueses daquela universidade de quem tinha o número. Anunciou ao pequeno mundo lusófono de Trefforest — onde fica o campus — que íamos celebrar para o Otley’s.
O Otley’s é o mais histórico e pitoresco pub de Trefforest. Tem cervejas próprias, como muitos outros pubs britânicos, e muito boas; os donos gabam-se de prémios nacionais e internacionais, e as minhas papilas gustativas corroboram.
Fomos os dois madeirenses para o Otley’s, com a certeza de que nenhum outro português se juntaria a nós, devido à emergência da entrega de trabalhos antes das férias de Natal e a hora tardia da convocatória. Mas não estávamos sozinhos. Um pub britânico — em Gales, para potênciar a coisa — num meio pequeno, onde vamos com frequência, colado a um campus universitário e cercado por casas alugadas a hordas de estudantes de várias nacionalidades, não é local onde se fique sozinho. Eles não deixam. Desde a jukebox que puxa conversa, o pessoal da casa e clientes habituais, e a natureza conversadora do galês — depois de uma pint ou outra — nunca estivemos sós. Muito inglês teve de fluir das nossas bocas lusófonas, entre gargalhadas, pints de cerveja e happy birthdays.
Como chegámos já tarde, e para um português a noite não acaba à meia-noite, decidimos comprar uma caixa de cervejas e voltar para o apartamento do meu conterrâneo para continuar a celebrar. Eram vinte e quatro latas de pint (440ml) — não se preocupe o leitor que não as bebemos todas, nem era a nossa intenção — carregadas sobre os meus ombros.
Quando estávamos quase a chegar ao portão do campus, um motor aproxima-se na estrada atrás de nós. No momento em que passou um baque nas costas e uma explosão de gargalhadas do interior do automóvel. Senti uma vontade instantânea em mandar as latas atrás do carro que fugia do local; mas a minha aversão ao desperdício de cerveja tolheu-me o ímpeto. Entretanto, o meu colega de folia viu-me as costas.
— Foi um ovo...
Tinha acabado de sofrer um covarde ataque, pelas costas, com um ovo cru. Não fosse a insistência do meu amigo, que desvalorizava o pueril evento e me desafiava a mais uma cerveja, e teria acabado por ali a minha modesta celebração.
Digo muitas vezes que aquele foi marcado pelo ovo, mas não é verdade. O meu trigésimo aniversário ficou marcado pela amizade recente que se recusou a deixar passar aquele dia, e me impediu de cingir a celebração a uma brincadeira de mau gosto.
Neste aniversário que aí vem, o trigésimo quinto, estou de volta ao ninho que me viu nascer depois de dezasseis anos de ausência. Talvez seja essa a marca. Ou talvez seja o nascimento de mais um sobrinho. O tempo o dirá.
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